Silêncio…

Pelotas 170

Querida Adelle,

Como estás? Quanta saudade…

Perdoe-me por todo esse tempo de ausência e silêncio! Há tempos que penso em escrever-te, mas eis que Chronos subtrai meus propósitos que se perdem no pretexto das obrigações diárias…

E, então, a vida muda seus rumos, deixamo-nos engolir por seus tão variados estreitos e, quando percebemos, nem sabemos ao certo onde estamos e como chegamos ali!

Ainda bem que isso não nos impede de seguir e, de tempos em tempos, entender que é preciso acertar os prumos! São nessas horas que nos entregamos a Kairos, ou mais profundamente a Aion, e voltamos a nos perceber e a nos questionar sobre nossos rumos, valores e premências. Conseguimos nos tocar por aquilo que é, de fato, essencial!

Foi num desses instantes que me apercebi do quanto sinto a falta tua. Não falo da ausência da presença física, mas da companhia das palavras amigas. Aquelas que oras acalentam, oras alertam; algumas vezes afagam, noutras inflamam querendo nos abrir os olhos para aquilo que cegamos; que podem ser ao mesmo tempo doces e duras, mas sempre tão necessárias…

Assim são as amizades essencialmente verdadeiras em nossas vidas, aquelas devotadas desinteressadamente por pessoas que nos amam nas virtudes e falhas; que, mesmo em desacordo, nos apoiam em nossas mais lúcidas loucuras, nos resgatam do mais profundo que chegamos e nos deixam voar o mais alto que alcançamos; sempre prontas a amparar possíveis lesões e cicatrizes!

Impossível refletir sobre tudo isso e não pensar em ti! E é em nome dessa fraterna amizade, das mais significativas em minha vida, que te peço desculpas pela tão prolongada falta!

Com um imenso carinho de saudade,

Chiara

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O que dizem seus olhos?

Querida Chiara,

Queria hoje te escrever uma carta intuitiva. Simplesmente, deixar fluírem meus pensamentos para você – frontalizada, coração livre, mãos alienígenas!
Fecho meus olhos.
Quando queremos ir ao mais fundo de nossa intimidade, no que realmente anseia nossa alma, enxergar com clareza nosso desejo real, fechamos os olhos. Fechamos os olhos para perceber a totalidade de uma situação, para concentramos no essencial. Síntese. Do todo para a parte, do geral para o específico. Do mundo para o eu. Fechamos os olhos para a oração, para o beijo, para o sonhar, para o rem, para cantar a melhor parte da melodia, para o abraço (com barulho) mais demorado e um sorriso no rosto. Olhos do mundo, olhos abertos para o exterior. Fechamos as janelas do mundo non self, abrimos os olhos para o infinito galáctico das emoções. Nudez.
E para se comunicar com outro ser humano? Olhamos nos seus olhos – e não tem como olhar e não ser olhado – troca, exposição, verdades, ligação. A palavra escrita das cartas – olhos!
Feche seus olhos e te veja. Eureka! O que és? – Sou agora. Nasceste hoje?- Não. Porque hoje é polidimensional – fusão dos tempos. Tudo o que viveu te torna hoje. Tudo o que revive hoje transforma o que passou. Você é quando: atemporal. Ora tempo, ora temporal – mas sempre o que és. É emocionante se apoderar de sua biografia, acreditar em si própria de olhos fechados.
“- A vida da gente, Senhor Sabugo, é um pisca-pisca só.
Pisca e mama, pica e anda, pisca e ama, pisca e cria filhos, pisca e geme…
Até que um dia pisca pela ultima vez!
– Depois que morre, Emília?
– Vira hipótese.”
Entre um piscar e outro, acontece da gente se enxergar no mundo…
E quando você muda, o mundo muda.
O que dizem seus olhos?
Com o maior carinho, sua amiga,
Adelle

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Medo… tanto medo…

Querida Adelle, 

Por que será que sentimos tanto medo? Por um acaso você já reparou quantas foram as vezes em que falamos sobre “medo” em nossas cartas? Fora todas as outras nas quais falamos sobre ele em nossas oportunidades de encontro (que, aliás, estão cada vez mais raras, para meu pesar!).

São tantos e tão contraditórios os nossos medos… temos medo de amar, mas também não suportamos a idéia de não amar (e pior: de não sermos amadas!); medo de não nos realizarmos profissionalmente, mas também de enfrentar escolhas difíceis e de abrir mão de muitas coisas em prol do tão sonhado sucesso profissional; temos medo das mudanças, tão inevitáveis ao longo da vida, mas carregamos verdadeiro pavor da estagnação… e por aí vão os nossos infinitos medos…

Na maioria das vezes, todas essas possibilidades potenciais de “ameaças”, relacionadas aos nossos medos mais íntimos, não passam de fantasias… criadas e alimentadas por nós mesmas…  principalmente quando envolvem terceiros.  Nossas crenças e interpretações dos acontecimentos estão totalmente ligadas aos nossos medos e também ao modo como o enfrentamos. Nada como a nossa imaginação para melhorar ou piorar tudo!

Não tem sido lá muito fácil conviver com a minha sombra, mas confesso que essa foi uma das melhores decisões da minha vida. Foi a decisão que permitiu que muitas outras acontecessem… digamos que foi a precursora de uma reação que está me permitindo renascer aos 32 anos! Sinto-me uma criança, um aprendiz… através da exposição dos meus medos pude me ver, me olhar, me enxergar, me ouvir, me cheirar, sentir o meu gosto, enfim, me sentir…

Respeitei meus limites, mas descobri as possibildades do meu corpo… Ignorei as barreiras e pude perceber a imensidão da minha alma… agora tenho uma leve noção da extensão do meu ser, apesar de acreditar que deve ser bem maior!!!! Sentir-me viva… quer coisa melhor? E por fim, descobri que o nosso maior medo é o de viver plenamente… talvez porque não saibamos bem como fazer… não existem fórmulas, receitas, roteiros e mapas!

O medo pode nos paralisar ou nos impulsionar para o enfrentamento. Tenho preferido a segunda opção… nossa sombra nem sempre está lá para nos atrapalhar… por mais contraditório que possa parecer, a minha sombra tem trazido muita luz! Como diz Flávio Gikovate, “a gente não vai sem medo, vai apesar do medo”.

Por fim, lembrei-me do famoso discurso de Nelson Mandela:

” Nosso medo mais profundo não é de que sejamos inadequados. Nosso medo mais profundo é que sejamos poderosos demais. É a nossa luz, não nossa escuridão, o que mais nos assusta. Nós nos perguntamos: “quem sou eu para ser brilhante, alegre, talentoso e fabuloso?” Na verdade, quem é você para não ser? Você é um filho de Deus. Fazer menos do que você pode não serve para o mundo. Não há nada luminoso no fato de você se encolher para que outras pessoas se sintam inseguras com você. Nós nascemos para manifestar a glória de Deus, que está dentro de nós. Ela está não só em alguns de nós, mas em todos nós. E a medida que deixamos nossa própria luz brilhar, nós, inconscientemente, damos permissão aos outros para fazerem o mesmo. À medida que nos libertamos do nosso medo, nossa presença automaticamente liberta outros”

Coragem!

 Chiara

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O sertão sou eu. Travessia.

Chiara querida,

Distância… esta tem sido nossa tônica nos últimos tempos…

Distante dos outros, do mar, submersas na imensidão de nós mesmas. Achei super interessante uma entrevista que fiz em que ficou clara a personalidade f’óbica de uma paciente, filha de judeus fugidos de Auschwitz e que tinha queixas de memória. Ela era super organizada, tudo anotado em uma agenda, metodicamente. Teve 100% de acerto nos testes cognitivos. Quando disse que a memória estava intacta, e que a questão era do psiquismo inquieto, claro que ficou indignada. Daí a colega que estava presente lhe disse: “você aí, com essa agenda lotada, não tem problema de memória. Você tem é MEDO. Medo de perder sua autonomia, sua indepenência, sua onipotência. E transfere para a memória – é seu mecanismo de defesa contra o MEDO.”  A paciente pediu para repetir, pois achara aquilo lindo – acho que ninguém tivera coragem antes de dizer o óbvio àquela mulher tão poderosa…. Como dizia Guimarães Rosa na terceira margem do rio, “um medo não sei de quê”… medo herdado, medo não sei de quem, nem pra quem, me desorienta o pra onde…

Por trás da pessoa enérgica, exigente, produtiva… uma menina com amedrontada, que não sabe vivenciar sua sombra, e se esconde atrás da rocha… não vê a sombra que não deixa de existir, mas está lá, do outro lado… se auto-ofusca.

Acho admirável você enfrentar a sombra. Saber assumir, procurar conhecer-se, quase um pique-esconde de um!  O afastamento também é uma defesa, o medo do desconhecido é natural. E a introspecção é oceânica… profunda, empuxos, ondas, marés altas e baixas… entendo nossas fases lunares… tudo a seu tempo.

Respeite a ti mesma. Cada um tem um tempo, um ritmo, uma melodia, algum acorde dissonante de pura modulação para preparar para o encadeamento final. Você é o maestro, A batuta está na sua mão. Ao seu menor movimento, a música está no ar.

O que te dá mais medo?? Para mim, me afogar no mar – mas, se não sei nadar, sei boiar e deixo a onda me levar, até que eu consiga nadar… É isso: diante do que dá medo, a gente fica inerte, boia, e deixa a vida levar até que tenha confiança para seguir com as próprias forças. Sobreviver para viver. Não é à toa que tens nadado tanto no físico… e está ficando ótima!

Se mil braços e pernas tivesse (seria uma centopéia, ha-ha-ha!), mil eu te daria, minha amiga… mas falta-me ar, por isso estou reaprendendo a respirar!  Travessia…

Estava reparando os pontos de vista do mar e do sertão, os angulos de visão: da praia (terra firme), olhamos para o mar, o infinito e profundo. No sertão, olhamos do rio para a terra… mas desembocamos no mar… todo rio é mar também, um vir-a-ser. Travessia.

Um beijo no seu coração!

Adèle

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Desejo de mar…

Querida amiga,

perdoe a minha ausência, mas estive fora por algum tempo… fora de mim… na verdade, acho que ainda estou…

Não sei exatamente o que andei buscando e isso me incomoda muito… Essa falta de objetivo, isto é, esse não ter ou não perceber um “objeto” a ser buscado, tem me deixado meio sem chão…

Não sei se é o início de um novo ano e a multiplicação de fantasias de recomeços ou se é a constatação de que sempre haverá novas possibilidades… não sei se é medo ou insegurança de avançar em novos caminhos, de buscar novos ideais, de mudar a rota… ou se é puramente reação (atrasada!) a fatos não muito agradáveis, a descontentamentos por projetos não realizados, ou não realizados no tempo outrora planejado… Não sei…

Por isso entendo o seu afastamento. Às vezes necessitamos de recolhimento, isolamento do mundo e das pessoas. É como poder olhar para tudo de um modo distante, como não fazendo parte de nada… um tentar não sentir envolvimento, um fingir estar ausente… e quem sabe assim conseguir avaliar sabe-se lá o que!

Mas confesso que ainda estou em um instante bastante primitivo. Não quero olhar… não quero enxergar… não quero me ver agora…

Não quero falar, não quero discutir ou pensar soluções, não quero avaliar ganhos ou danos, não quero antecipar conseqüências, não quero prevenções… Não sei o que quero!

Sabe o que eu quero agora? Eu quero ver o mar… sabe aquela sensação de olhar para o infinito? De espremer os olhos, espichar o olhar lá longe e não conseguir ver onde termina?

Talvez eu só esteja precisando de férias!!!!! Mas como é que se sai de férias da gente mesmo???

Saudades,

Chiara

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Iatrogenia

Caríssima Chiara,

Saudades demais de você e de mim mesma!!

Pois sou mais eu quando falo a você…

O afastamento de você foi para me assistir – nos seus vários sentidos…

Precisava de ajuda, de energia e de foco. Dezembro se foi e consegui superar seus desafios práticos. Eu sou, eu posso, eu vou.

Precisava de auto-acolhimento: entender-me requereu mais que entender minhas raizes. Requereu aceitá-las. Como uma criança que ouve os adultos que o geraram. Ela simplesmente ama, sem questionar. Eles simplesmente são tudo. São seus pais. E isso traz segurança e paz (pronuncia-se “pais”), e mais nada é necessário. Ela se sente plena e inteira. A receita funciona também depois de adulta. Eureka!

Precisei me observar na terceira pessoa. Narrador onisciente. Sobrevivi a mim mesma.

Descobri muitos amigos, companheiros perenes e de momento, mas afins a mim e a minha causa. Descobri desafetos comuns. Que sentimentos menos nobres são maus hábitos e podem ferir meu caráter empático. Vivenciei que é preciso deixar o que não passa, a imutabilidade. A lei natural é a mudança, é a evolução. Optar por deixar a estagnação não é falta de caridade! É livre arbítrio.

Segui, livre e reto e sempre. E, com saudades de mim, resgatei afetos no Natal, pequenas pérolas que brotaram em jóias da alma. Colhi sentimentos adormecidos em franca erupção, troquei poesia, compartilhei emoções. Com a certeza da sintonia, acreditei no uníssono contido. E estou feliz, mais uma vez. Mesmo que iatrogenicamente, amor aristotélico, viés de seleção – primum non nocere. Juventude não tem idade –  redescoberta da fonte!

” Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
– flor do cotidiano –
é vôo de um pássaro
é uma canção. ”
Drummond – “Poemas de Dezembro”

Abraço enorme, saudades!

Adelle

Por uma existência autêntica!

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Reviver e sobreviver!

Minha querida amiga,

sei que este tem sido um período difícil… Não se preocupe em pedir desculpas!

Tenho acompanhado este seu momento, embora não tão perto quanto eu gostaria… mas por mais perto que estivesse, nunca seria o suficiente para apaziguar seu coração… Existem momentos nos quais necessitamos seguir sós, mesmo quando insistem em nos acompanhar…

Difícil lhe dizer, impossível saber… quantos amores serão necessários? Não sei… Poderia cair no senso comum e dizer: – quantos forem precisos para nos completar, para nos manter felizes, etc. Mas eu prefiro assumir que, realmente, não sei! Também penso nisso muitas vezes, principalmente nos ensejos de solidão, gostaria mesmo de poder ter uma resposta, mas não tenho… aliás, quem a terá?

Também não sei se é certo, sensato ou se é totalmente incerto estar inteiro em uma relação… é difícil nos aceitar em tudo, como nos mostrar completamente? Como estarmos integralmente? Como seremos absolutos? Isso pode levar muito, muito tempo ou nunca acontecer! Nem sei o quanto é, de fato, necessário… ou se é justamente o contrário! Nós não vemos o lado escuro da lua e ela está lá, linda e soberana no céu! Parece-me inteira.

Acho que sempre será obscuro ter certas certezas. Às vezes teremos que assumir alguns riscos.

Que promiscuidade pode haver em estar confusa no amor? Não se exija tanto! Que “atire a primeira pedra” quem nunca se desorientou nos desconexos caminhos do coração! Verdadeiros labirintos! Compreensível perder-se… e quantas vertigens nos causam… e quantas vezes nos derrubam! Mas houve ocasião na qual você deixou de se levantar? Pode até ter demorado, mas não durou uma eternidade! Por que nada é imutável, tudo muda! Até os estreitos de nossos corações!

Você, mais que ninguém, sabe o quanto sei ser difícil quebrar padrões, desfazer-se de crenças (puras ilusões!), romper raízes e trilhar um caminho próprio… é árduo, é doloroso, é solitário… mas vale cada adversidade superada… nenhuma dor pode ser maior do que a dor de não se saber você!

A liberdade de sermos nós mesmos tem seu preço sim, mas não é tão exorbitante assim. Nós podemos pagar! Que valor teria não fosse o desafio da conquista? Você poder ser o que quiser ser! Mas não pode se esquecer de algo muito importante, antes de adentrar-se na batalha, você precisa saber: o que você quer ser? Onde quer chegar?

Você precisa descobrir! E, de preferência, antes de assumir como seus os sonhos, planos e objetivos de uma segunda pessoa… Lembro que você me falou da dificuldade de fazer planos a dois… Fica muito mais difícil quando desconhecemos os nossos próprios desejos, além de perpetuar certo vazio, certo silêncio interior… Agrava-se a nossa mudez!

Não acredito que exista um alguém ideal… nossa idealização do outro costuma ser o primeiro passo para o descontentamento e, conseqüentemente, para o desencontro. Ninguém vem pronto. Quando olhamos “de fora”, sempre nos parece que foi fácil, mas desconhecemos as batalhas interiores de cada um e não fazemos a menor idéia de quanto esforço foi necessário… sim, pois é necessário muito esforço para construir uma relação duradoura… muitos ajustes existiram, esteja certa disso! Não se constrói um edifício com meia dúzia de tijolos… e às vezes, são imprescindíveis reformas!!!!

Às vezes insistimos em padrões que nos são impostos, mas não são nossos… não há como mantê-los indefinidamente. Decepcionamos-nos quando assumimos quereres alheios… Não acho que a questão entre vocês seja o fato de serem muito diferentes, mas sim a dificuldade em aceitar objetivos opostos e em compartilhar sonhos comuns… os conflitos foram inevitáveis… Isso também cabe em mim!

Mas embora nada dure para sempre, muitas vezes pode ser forte o suficiente para se tornar eterno em nossas almas… Ainda assim, precisamos aprender a deixar o outro ir, para que nós também possamos seguir… Essa é a parte mais difícil… Ninguém ensina, ninguém explica.

Há tantas coisas em nós que cientistas jamais conseguirão explicar… os poetas talvez sejam os que mais se aproximam desses mistérios… há coisas que só se explicam nas entrelinhas… precisa de alma para conseguir entender… e essa, sei que você tem!

Sobreviva mais uma vez!

Chiara

... e seguir em paz!

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